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Teleoperadores querem valorização, melhores salários e oportunidades

02/07/2021 - 19h18 - Sinttel-ES - Redação
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02/07/2021 – 15h27 – Federação Livre – Redação

Domingo, #4dejunho, é o dia do(a) Operador(a) de Telemarketing. Mas não é uma data conhecida e festejada como o dia da independência dos EUA,  dia das mães, da mulher, do Trabalho, Natal, Ano Novo. Esses operários da voz, pouco têm para comemorar e reivindicam vacina, valorização, oportunidade de crescimento, salários e benefícios melhores.

Considerada categoria essencial na pandemia de coronavirus “por manterem o país conectado” todos tiveram que trabalhar e ajudar os outros milhões de brasileiros a ficar em casa no isolamento social. Contudo, como muitos outros trabalhadores essenciais, foram desconsiderados no Plano Nacional de Vacinação pelo governo genocida de Jair Bolsonaro, que, irresponsavelmente, optou pelo vírus ao invés da vacina, vitimando  520 mil vidas, até esta data. Dentre estes, muitos teleoperadores/as e suas famílias, amigos, colegas, vizinhos.

Eles, elas, em sua maioria exercendo atividades no primeiro emprego, têm entre 18 e 37 anos. Não vimos seus rostos, nunca sabemos qual a raça, sua cor, opção sexual e nem onde estão do outro lado da ligação.

Estão presentes em nosso dia a dia, principalmente quando precisamos da polícia (190) do Samu (192), dos bombeiros (193), quando falta água,  energia, quando o telefone, a internet, o carro pifam. Nos ajudam a marcar consultas. Ouvem nossas queixas, estejamos calmos ou irados. Em qualquer emergência é sua voz que ouvimos.

Muitos de nós nem acham que os teleoperadores são humanos, principalmente algumas empresas e seus gestores. O salário pago a esses trabalhadores tão importantes na nossa vida “são salários de merda”, como explica o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, Bullshit Jobs: A Theory [Trabalhos de Merda: Uma Teoria].

Esse autor é professor de Antropologia na London School of Economics (Inglaterra) e argumenta  que quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios.
“É curioso. Há poucas exceções como os médicos. É evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais. Mas os garis, operadores de telemarketing, motoristas do transporte público, por exemplo, que são empregos socialmente valiosos, sempre são mal pagos. “Empregos de merda”  são os que recebem bons salários mas nada produzem e que se desaparecessem da ossa sociedade capitalista não fariam falta”, explica David. 

A Federação Livre e seus SINTTELs (Sindicatos de Trabalhadores em Telecom) filiados no Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Rondônia têm buscado melhores condições de trabalho e renda para o setor de Teleatendimento que emprega cerca de 700 mil de trabalhadores no Brasil.

A pandemia e o trabalho em home office exigiram que os acordos de Teletrabalho garantissem ajuda de custo, direito à desconexão, equipamentos, segurança digital, mobiliário ergonômico e condições de trabalho para os passaram a trabalhar de casa.  Mas enfrentam muitos desafios.

Nas grandes empresas de call centers como a Teleperformance, Atento, LIQ os acordos foram feitos ainda no final do ano passado. Na BrasilCenter (Grupo Claro) somente em junho desse ano a empresa propôs um acordo de Teletrabalho com ajuda de custo, cessão de equipamentos e mobiliário.

A TIM foi a primeira e única operadora, até agora, a instituir o Teletrabalho. O acordo foi firmado junto da negociação salarial, em setembro do ano passado. A Italiana estabeleceu como política definitiva do seu teleatendimento e, por isso, foi também a primeira a convencionar um acordo com ajuda de custo e regramento para o trabalho em home office.

Em todos os estados, os sindicatos têm conseguido estabelecer acordos de teletrabalho com pequenas empresas de call centers. Porém as grandes operadoras como a Vivo e Oi ainda não se dispuseram a compensar e oferecer boas condições de trabalho. A Claro já fez uma proposta, que ainda não foi levada à apreciação da categoria.

Perguntamos a dez (10) trabalhadores e trabalhadoras no Teleatendimento de 3 call centers como estão atravessando a pandemia. O perfil dos entrevistados tem idade de 18 a 37 anos, 8 são do sexo feminino e 2 LGBTQIA+, 6 trabalham presencialmente na empresa e 4 estão em home office. Receberam ajuda de custo apenas 3 trabalhadores, assim como os equipamentos foram cedidos pelas empresas. Adoeceram no trabalho 3 teleoperadores. O diagnóstico de 2 deles foi ansiedade, o outro foi gripe. Os afastamentos foram de 5 a 7 dias. Apenas 2 se vacinaram contra a Covid por terem  comorbidades.

Quais as são as principais queixas em relação ao trabalho? 
  • A remuneração é algo que me perturba, desejaria ter um maior salário e tíquete (auxílio-alimentação). Na pandemia vivemos situações de pânico, onde todos pararam e nós continuamos indo trabalhar. Hoje somos uma categoria que não foi priorizada nas vacinações e continuamos pegando ônibus convivendo com risco, mesmo utilizando a higienização, ainda estamos próximos uns dos outros.
  • A pressão por metas, a utilização da nota de satisfação do cliente como indicativo para comissionamento (Remuneração Variável Individual), sendo que essa nota avalia a empresa. A desvalorização do REP (teleoperador) e que no pós-pandemia ficou mais explícito, é que somos apenas um número. Contratação e promoção de supervisores despreparados e sem conhecimento do trabalho, o que causa atritos entre a equipe, que por vezes torna-se um ambiente hostil de trabalho.
  • Antes da pandemia tinha uma maior confiança em responder os cliente, durante a pandemia tive crises de ansiedade e início de depressão
  • Pausas curtas e escala 6×1 o que prejudica, por exemplo, passear nos fins de semana ou viajar.
  • Quando comecei a trabalhar já estávamos na Pandemia, eu gosto do meu trabalho mas tem muita coisa que deixa a desejar, como a falta de oportunidade de crescimento, cobrança exagerada, as vezes até abusiva, às vezes dá entender que querem tirar nossos direitos. Sou mãe e aqui na empresa só é permitido dar um atestado para acompanhar o filho no médico, acho errado porque meu filho tem asma e se Deus me livre acontecer alguma coisa.

Relate como as despesas da sua casa aumentaram depois que você foi para home office. Se puder compare valores de energia de fev/ 2020 com fev/2021, internet, gás de cozinha, água, material de limpeza, alimentação e até despesas com médicos, remédios. Relate como você está se virando para se manter.

  • O consumo de energia e água aumentou em aproximadamente 30% por mês. Precisei fazer upgrade de internet de 25Mb o que atendia muito bem minha família para 300Mb para suportar o software da empresa o que representou uma despesa de R$ 60 mensais. Não observei diferença na alimentação, mas passei a comprar mais remédios.
  • E energia foi o que mais aumentou. Fev/2020 em torno de R$200. Fev/2021 a conta foi de R$580
  • Não consigo dar exatidão nos valores, mas aumentou bastante o gasto de energia, de internet e de comida, fora o desgaste emocional, os 80 reais que deram não pagou nem metade do aumento.
Com a pandemia, o que mais prejudicou a sua vida no trabalho? 
  • A exposição à Covid, principalmente pelo percurso de ônibus. A empresa poderia optar pelo home office, porém não deu essa oportunidade para os trabalhadores.
  • O aumento da pressão por resultados e dificuldade de conseguir apoio para resolução de problemas específicos que fogem a nossa alçada, o que diminui o nosso resultado mensal, e num círculo vicioso eleva a cobrança.
  • A  comunicação e as relações interpessoais na empresa.
  • A preocupação de pegar ônibus lotado sem saber se estou levando o vírus para dentro de casa.
  • Como o trabalho não parou, sinto que aumentou mais o medo em pegar ou passar covid para algum colega de trabalho.
Você consegue trabalhar com tranquilidade em casa? 
  • Não, pois o suporte da empresa é falho. O ambiente residencial não é apropriado devido ao barulho e interferências externas que por vezes é duramente criticado pelos clientes/ouvintes.
  • Não, pois não me sinto segura em ralação a posicionamentos
  • Não, barulho.
  • Não, pois tenho filha e a rua é barulhenta.
  • Quando trabalhava em casa sim, pois estava perto da minha família no meu aconchego e mesmo assim cumprindo minhas tarefas
A empresa vem agindo da mesma forma, depois que você foi trabalhar em casa? Relate o que mudou.
  • Treinamentos cada vez mais fracos, não há apoio do relacionamento e analistas sobre novos sistemas e produtos.
  • Não, ela tem sido mais rígida.
  • Mudou porque mudou a supervisão, a anterior ajudava e compreendia a gente, essa quer acabar conosco, fora o tratamento abusivo.
  • Depois que fiquei trabalhando em casa, a máquina eles disponibilizaram, mas a cadeira não, aí não era confortável pra mim.
O que deveria mudar nas empresas para que os trabalhadores e trabalhadoras fossem mais valorizados/as?
  • Remuneração e melhoria de benefícios.
  • Melhoria nos indicativos para comissionamento
  • De uma forma mais pessoal, acredito que ter mais possibilidades de escolhas em questões de horário, hora extra e principalmente a possibilidade de estar de home para aumento de qualidade de vida.
  • Folgas fim de semana
  • A compreensão sobre a rotina, o salário que não é dos melhores, e as oportunidades de crescimento
  • Mais apoio, mais incentivo, mais reconhecimento, salário melhor, mais empatia.
  • A gestão
  • Horário de almoço maior, cadeira mais confortável.

Foi discriminado/a, humilhado/a, sofreu bullying no trabalho? Relate a situação

  • Ameaças de retorno ao trabalho presencial no auge da pandemia devido a resultados não satisfatórios para empresa. Supervisor sugerir que eu solicite demissão. Coação com Tom de voz alterado para assinar medidas/sanções disciplinares com ameaças de demissão por justa causa.
  • Não fui, mas vi um amigo ser por conta de uma característica que tenho em comum com ele e tenho medo de sofrer também
  • Em uma calibragem, no fundo da ligação surgiu um palavrão. E quando me chamaram para ouvir essa ligação falaram que era minha voz , era de outra operadora, constrangedor, mas questionei pois não tenho costume de xingar.

 

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