Insatisfação crescente

A visita ocorre em um momento de forte tensão, pois os trabalhadores resolveram fazer pequenas paralisações. Na semana passada, a Hallen Telecom divulgou um comunicado oficial transferindo para o Sindicato a culpa pelo atraso no reajuste salarial anual, alegando recusa em levar a proposta patronal para avaliação em assembleia com os trabalhadores. A empresa até antecipou o reajuste do INPC de 4,11%, alegando que esse é o percentual já aceito por trabalhadores em outros estados.
No entanto, o cenário encontrado em campo pela diretoria sindical revela que a insatisfação dos trabalhadores vai muito além das cláusulas econômicas e envolve as condições diárias de trabalho.
Todos os problemas serão formalmente discutidos em uma reunião decisiva com a direção da empresa na próxima quinta-feira, dia 30/07.
Confira abaixo o raio-x das principais reclamações que serão levadas à mesa de negociação:
Fim da meta mensal e imposição de “métrica maluca”
Antigamente, a empresa operava com cargos separados (instalador e reparador) e uma meta mensal estável de 60 pontos. Ao atingi-la, o trabalhador recebia remuneração variável. A Hallen alterou o sistema para uma meta diária de 3 pontos com apuração a cada 10 dias. O modelo atual pune severamente o técnico: se ele não atingir a meta em um único dia, perde o direito ao bônus de todo o período de 10 dias. O Sindicato classificou o sistema como confuso e sem clareza, destacando que nem a própria empresa soube explicar o funcionamento da regra.
A empresa extinguiu a divisão entre instaladores e reparadores, unificando todos os técnicos na função de “Multi-skill”. Agora, o técnico realiza as duas atividades simultaneamente, o que tornou o cumprimento das metas muito mais difícil. Diferente das concorrentes como a Telemont e a própria Vivo, a Hallen agregou essas novas responsabilidades sem conceder um centavo de reajuste. Após a cobrança do Sindicato no dia de hoje, a empresa se comprometeu em promover, no próximo mês, seis técnicos de Guarapari para o cargo de Técnico Sênior, cuja remuneração ultrapassará os R$ 1.900,00.
Os trabalhadores relatam que os materiais fornecidos pela operadora Vivo seguem com fluxo normal no sistema, mas há desabastecimento crônico nos itens de responsabilidade da Hallen. Técnicos relataram que caminhões de suprimento chegam sem anéis de poste (fundamentais para prender as novas instalações). Mesmo sem a ferramenta para trabalhar, os técnicos vinham recebendo advertências por não executarem o serviço. O Sindicato orientou aos trabalhadores recusarem formalmente a execução de instalações em postes caso falte material, uma postura que a própria empresa aceitou hoje.
O impacto das advertências na folha de pagamento é imediato e severo: qualquer trabalhador penalizado tem a sua produção dos 10 dias completamente zerada no sistema. O Sindicato exige o cancelamento de todas as advertências aplicadas recentemente, visto que decorrem da própria incapacidade da empresa em fornecer peças e componentes básicos de trabalho.
Advertência com visualização única por WhatsApp
Em uma prática que foge de qualquer legalidade e padrão de relações trabalhistas, a supervisão da Hallen Telecom vem enviando notificações de advertência aos funcionários pelo aplicativo WhatsApp utilizando o recurso de “visualização única”. A manobra impede que o trabalhador guarde o registro da punição ou consulte os argumentos da empresa para punir o empregado, gerando total insegurança jurídica.
Os técnicos apontam que as cotas utilizadas pela empresa para o fornecimento de gasolina não correspondem à realidade das visitas e atendimentos, deixando os veículos com combustível insuficiente para cobrir as rotas diárias e o cumprimento das metas de serviço.
A gestão do banco de horas virou alvo de protestos. Os trabalhadores são avisados de que estão de folga no final da tarde do dia anterior ou, em casos piores, ao chegarem para trabalhar logo cedo pela manhã. A falta de previsibilidade é um desrespeito com o trabalhador, impede o descanso e o planejamento familiar. O Sindicato vai exigir que a escala de folgas compensatórias seja comunicada com, no mínimo, 15 dias de antecedência.
A empresa tem exigido que os técnicos iniciem o aplicativo de trabalho exatamente a 300 metros da residência do primeiro cliente do dia, logo pela manhã. A Hallen alega que a regra é uma imposição contratual da operadora Vivo. O Sindicato encaminhará o caso para o seu departamento jurídico para avaliar a legalidade da medida e o cômputo correto das horas de deslocamento.
Desrespeito a feriados locais
Os técnicos mais experientes denunciam que novos contratados estão sendo colocados nas ruas sem o devido treinamento técnico ou de segurança. Os novatos acabam repassados para os funcionários antigos ensinarem na prática diária, sem suporte adequado. Muitos chegam ao campo sem saber realizar procedimentos básicos de segurança, como equipar um poste corretamente, colocando a própria integridade física em risco.
O Sindicato reforça que manterá a categoria informada sobre os desdobramentos e as respostas que a Hallen Telecom apresentar na reunião desta quinta-feira (30/07).